Porque continuamos com The 100 e esperamos que você também!

Porque continuamos com The 100 e esperamos que você também!

Os fãs de The 100 estão zangados com os últimos acontecimentos, e isso é bom — mas não mude uma crítica em uma vingança que afeta os escritores que estão lutando para uma inclusão e representação em Hollywood.

Muitos fãs de The 100 estão zangados no momento, e por uma boa razão. Todos sabemos nessa altura, que algumas semanas atrás, The 100 matou Lexa (interpretada por Alycia Debnam-Carey), uma líder poderosa e inteligente que era lésbica. Após a sua introdução na 2ª temporada, a personagem rapidamente se tornou a favorita dos fãs, talvez a única personagem a ser tão celebrada em qualquer série da CW. Quando ela morreu, eu fiquei devastada.

Lexa era forte, corajosa, tática e muito sábia. Ela era incrível, complicada, imperfeita; ela era uma representação impressionante de uma pessoa positiva, e apagando a sua luz acabou perdendo o apoio de muitos fãs pelo que é, de certa forma em muitos aspectos, uma série que surpreendentemente está sempre em progresso.

E sim, mesmo agora, continua surpreendentemente em progresso.

A reação de não somente os fãs, mas a comunidade LGBT em geral, foi imediata e generalizada. Lexa foi morta após se reconciliar com a sua amada, por uma bala perdida, quase como uma replica de uma certa cena em Buffy: A Caçadora de Vampiros, e da mesma forma que os escritores descartam as personagens femininas na TV. Tente ver por um lado onde a história estava chegando e de como tudo pareceu ser tratado friamente, os fãs agora se sentem traídos, de coração partido e muito, mas muito, zangados.

Apesar de tudo que The 100 tem feito para normalizar as coisas, e apesar dos escritores e atores claramente amarem Lexa e a sua amada líder bissexual Clarke, a morte de Lexa se enquadrou na horrível alegoria de “Enterre os Gays,” onde muitos personagens são mortos sendo grande parte lésbicas (e nem todas são tão bem representadas assim). A celebração da morte de Lexa pareceu ser um desprezo. O modo da sua morte foi barato, desnecessário. Os sentimentos de mágoa e traição não são sem fundamentos e não devem ser desconsiderados.

Mas é a partir daqui que eu começo o meu pequeno discurso de porquê você não deve parar de assistir à uma série como The 100, porque mesmo quando parece pequeno, mesmo quando parece cair pelo desprezo de certas pessoas, mesmo quando te traí: é porque está tentando. Está tentando fornecer o tipo de representação que muitas séries por aí nem se preocupam, e depois de tudo o que aconteceu com Lexa, eles vão se esforçar muito e muito mais — e precisamos de séries que se importam em se esforçar.

Obviamente, representação em The 100 é, e sempre foi, muito mais do que sobre um personagem ou um relacionamento. Não só a representação nesta série são múltiplas e abundantes, mas desde o primeiro dia tem sido acidental. Essa não é uma série sobre etnia, ou gênero, ou sexualidade ou incapacidade. É uma simples série sobre pessoas, onde permite que seus personagens cometam erros tanto quanto se é cometido na vida real. Mesmo em 2016, isso é raro de se ver.

Quando eu me sugiro à The 100 como uma utopia, as pessoas acham que é um erro de digitação, mas eu continuo firme e forme com minha constatação. O mundo pós apocalíptico onde os nossos personagens ocupam é tomado por perigo e tragédia, sim, mas em fase de quase aniquilação total, a humanidade tem feito algo incrível: superou as categorias já idealizadas da sociedade, que dividem o mundo de hoje.

Em The 100, as etnias são tratadas de muitas formas. A cor da pele dos personagens são irrelevantes, e não tem nada a ver com quem eles resolvem escolher amar/aliar-se. Ninguém tem um estereótipo porque isso não acontece no cenário pós apocalíptico da América em The 100. A única linha existente é entre os Terra-firmes e Arcadianos, os indígenas e os invasores — um tipo diferente de disputa, relembrando os velhos conflitos que são válidos, e tratando com um cuidado extraordinário.

Em The 100, não existe essa coisa de gênero. Uma mulher está no comando, ou um homem está no comando; sem uma divisão de gênero, ninguém se importa tanto, e o merecimento se deve ao fato de competência e experiência. The 100 é sobre mulheres fortes, sim, mas a completa normalidade de se ter uma mulher no poder também significa que os homens também podem estar (ou não), e não tem nenhum impacto no modo como as personagens femininas agem. Em respeito a isso, é uma verdadeira igualdade, e eu não consigo pensar em muitas séries de ficção que conseguem administrar em elevar ambos os gêneros, sem perder perspectiva e fazer tanto o homem como a mulher serem símbolos de força/fraqueza.

E finalmente, em The 100, ninguém se importa com a sua sexualidade. Este tem sido o caso desde a 2ª temporada, e tem sido até agora, independente de como os escritores conseguiram lidar com as tropas do mundo real. Clarke continua sendo a nossa líder bissexual, que não decide amar somente homem ou mulher (e parece que ninguém mais resolve se importar também com os personagens que já se declararam não serem héteros na série). Miller e Bryan, o nosso casal mais novo ambos do mesmo sexo, tem muitos problemas — e eles se permitem terem esses problemas, como qualquer personagem fictício se permitiria, e que não significa nada pelo fato de ambos serem homens. É complicado por todas as razões, o relacionamento deles tem que se mostrar real.

Nada disso implica em desmerecer o que aconteceu entre Clarke e Lexa. Para ser mais claro, não estou dizendo que você deve mostrar apoio para The 100 depois de tudo o foi feito, mas pelo contrário, mostrar apoio pelo que ainda está fazendo e que sempre tem feito.

Em uma recente publicação do produtor executivo, Jason Rothenberg reconhece que os escritores fizeram uma péssima escolha sobre como resolveram matar Lexa — e na minha opinião — ele claramente teve o enorme esforço de ouvir aos seus fãs, de aprender, de se esforçar e tentar mais.

“O pensamento por trás da extrema tragédia sendo após extrema alegria era para aumentar o drama e destacar a fragilidade da vida. Mas o resultado final tornou-se algo completamente diferente — a perturbação perpétua da alegoria “Enterre os Gays”. Nossa promoção agressiva do episódio e da relação em questão apenas alimentaram um sentimento de traição.

E sinto muitíssimo por não ter enxergado o fato tão inteiramente quanto deveria. Sabendo tudo o que sei agora, a morte de Lexa teria se desenrolado de outra forma.”

Porém, por mais que eu tenha apreciado o reconhecimento de Rothenberg sobre como foi escolhido matar Lexa, eu afirmo que o que aconteceu aqui não deve desmerecer tudo o que The 100 tem feito, e continua fazendo, para a normalização de etnia/gênero/sexualidade. No final do dia, essa série é muito mais do que Lexa, e seria um desrespeito com todos os membros, os atores, os escritores, o produtor e toda a equipe envolvida com a série, acreditassem nisso.

A realidade sem esforço que The 100 nos propõe, onde os nossos atuais problemas culturais não existem, é muito importante, e também muito raro. Nos mostra o que talvez um dia possa ser. A ficção científica sempre significou em ser uma janela quebrada que nos reflita o mundo e a nós mesmos, e The 100 é cheio de questões filosóficas e subversões de expectativas. Nos expõem a grandes questões como: O que a humanidade faria se não tivéssemos esses rótulos arcaicos para nos moldar? E se não fossemos divididos e classificados? E se verdadeiramente não importasse se você for branco, homem hétero, uma mulher latina, ou não hétero, ou qualquer combinação de aspecto/personalidade? E então? Como você definiria o seu valor? Como viveria a sua vida?

Claro, parte de todo esse problema é porque sempre tivemos a consciência de que The 100 é especial. E é por este motivo que confiamos nos escritores para nos dar algo que poucas séries têm sido capazes de nos dar ultimamente — e por isso que a traição foi como um corte tão profundo.

Mesmo agora onde estamos vendo muito mais representação de não só sexo masculino e não somente brancos, a representação LGBT é a fronteira final. Em particular, a sexualidade masculina ainda é considerada um tabu dominante (muito parecido com nudez masculina), simplesmente porque é do foco da mídia atender as necessidades de apreciar o olhar masculino. Mas a sexualidade feminina, enquanto é mais comum em outra categoria de entretenimento, raramente tem esse mesmo tratamento. E é por isso que precisamos das série de ficção científica e de fantasia para abraçar essa representação LGBT quando os filmes não o fazem. E mesmo quando parecem pequeno, nós precisamos que eles continuem tentando, até que seja normal o suficiente para os grandes estúdios ousarem em apostar em tal representação.

É importante eu ressaltar novamente aqui que não estou dizendo que você não deveria estar com raiva de The 100. Claramente, a reação pela morte de Lexa deixou uma marca, e escolho acreditar que irá ter consequências positivas. Creio que os escritores de todas as séries estão prestando atenção, e penso que isso talvez seja o começo de uma compreensão da parte de Hollywood sobre o que a audiência LGBT realmente quer.

Tudo que estou querendo dizer é que The 100 tem tanto a oferecer, e sempre teve muito a oferecer. Nós ainda temos Clarke, a nossa heroína bissexual. Ainda temos Raven, Octavia, Bellamy, Monty, Miller e os inúmeros outros exemplos de personagens que não representam a ordem certa dos fatores, que acreditam em algo muito maior do que somente a ordem natural dos fatos, e nós nem questionamos isso. Tudo tem importância. E sim, provavelmente muitos deles não irão sobreviver até o final, mas a vida deles são importantes. Colocando eles em foco nas cenas e contando as suas histórias é importante. Se tendo tanta representação na TV é o que irá corrigir todo o problema, então nós não iremos mais olhar para personagens extraordinários. Nós iremos olhar apenas para simples personagens.

Enquanto eu nunca defenderia os escritores deixarem os seus fãs determinarem suas histórias — na minha opinião, essa é a maneira mais fácil e rápida de cair na mesmice, um cenário sem sentido, os escritores precisam ser capazes de contar a história deles, para o bem ou para o mal — uma série ter escritores tão responsáveis é importante para obtermos certo tipo de representação. Esse é o poder da mídia social e da base de fãs, se quisermos uma mudança, temos que fazer nossas vozes serem ouvidas.

Acredito que os escritores de The 100 querem nos ouvir. Acredito que já provaram esse fato inúmeras vezes. E em uma base de audiência, nós temos o poder de elevar as pessoas que tentam, e tentar entrar em acordo com eles para nos trazer as melhores possibilidades de representação possíveis.

Infelizmente, parece que uma grande base de fãs resolveram tomar a incansável posição de condenação, e eu acho isso uma vergonha. Estamos condenando os escritores que falharam, e apenas falharam porque eles resolveram, primeiramente, ir por esse caminho. Nós os condenamos porque sentimos que eles devem à nós a representação que todas as outras séries de Hollywood nos nega. Mas novamente, em minha opinião, ESTES não são os escritores que merecem a nossa condenação.

Eu acho que estamos perdendo uma grande oportunidade de verdadeiramente responder a quem nos escuta, para aqueles que querem fazer melhor. Sei que este é um tema altamente controverso, mas é maior do que apenas The 100. É sobre abraçar os escritores que se mostraram dispostos em abranger os limites dados, que estão dispostos em melhorar.

E é por isso que nunca irei boicotear The 100, e espero que você também. Não vire as costas para a série agora, não quando mais precisa da sua voz. Já fez coisas incríveis, e VOCÊ sabe que pode fazer ainda melhor. Você quer que a série seja tudo o que você espera que seja. Em muitas maneiras, a série já é. E em outras, ainda pode ser muito mais.

© Tradução: Andressa Montagna – Equipe The 100 Brasil – Não reproduza sem os créditos.

  • Gilmara Da Silva Reis

    basta trazer a Lexa de volta, que todos vão dar audiencia!!

  • Camila Gonçalves

    Lexa se tornou uma personagem tão importante quanto a Clarke. Não se mata uma personagem tão incrível tão carismática como ela. Foi um caso onde o coadjuvante ganhou tanta importância quanto o protagonista. Não vou deixar de assistir a série mas concerteza perderá um pouco da graça. Poderiam ter inventado qualquer outra coisa para tirarem ela da série menos morte. Se ela não tivesse voltado na terceira temporada a decepção tinha sido menor.

  • Andreia Mendes

    Não discordo completamente da opinião mostrada aqui de uma forma coerente e razoável, entretanto, da mesma forma que os escritores tem o direito de contar a história da maneira que julgarem melhor, também me cabe o direito de decidir se vou querer ou não assistir a aquilo que eles me propõe. Comecei a assistir essa série por causa de Lexa, por causa do grande barulho que ela causou nas redes sociais (antes disso nunca nem tinha ouvido falar na série). Depois de conhecê-la, assim como muitos, passei a amar a personagem. Portanto que sentido faz continuar assistindo à um show que não terá mais aquela que foi minha principal motivação para assisti-lo? Evidentemente assistirei até o final da temporada, mas após isso, pelo menos por enquanto, não vejo razão para continuar.

  • Tainan

    Perfeito texto. É original da Andressa Montagna? Soube prestar o devido respeito aos fãs de Lexa e enfatizar os pontos positivos da série sem apelação. Só li verdades. E restaurou minha fé na série. Parabéns!