“Mais personagens que amamos irão morrer nessa temporada e será logo”, diz Jason Rothenberg

“Mais personagens que amamos irão morrer nessa temporada e será logo”, diz Jason Rothenberg

Vamos ir direto ao assunto: matar um personagem nunca é uma decisão fácil e repentina. Os produtores e escritores de TV estão sempre tentando explicar a angústia de dizer adeus para os atores e os personagens que eles dão vida, porque apesar do que algumas pessoas gostariam que você pensasse, eles não são monstros contadores de história. Eles são humanos que amam o seu elenco e os seus personagens mais do que nós amamos, mas são eles que estão nos contando uma história. Algumas histórias nos dão imensa alegria e às vezes as reviravoltas nessas histórias faz com que pareça ser uma faca nos rasgando por dentro.

Nas semanas que se passaram desde que The 100 matou Lexa (Alycia Debnam-Carey), após um momento tão esperado, mas uma felicidade breve com Clarke (Eliza Taylor), houve diversos protestos entre os fãs, grupos LGBT e a mídia. Será que a série entrou para aquele histórico vergonhoso da TV onde matam personagens bissexuais e homossexuais? Será que houve muita expectativa exagerada vindo da mídia sobre Clexa antes do episódio? Será que eles perceberam que essa decisão era inflamatória e muito dolorosa? Enquanto a série se prepara para a WonderCon em Los Angeles, que será nesta semana, o produtor executivo e criador, Jason Rothenberg, conversou exclusivamente com TVInsider.com sobre o que ele aprendeu dessa controvérsia, o porque que ele nunca teve a intenção de machucar a comunidade LGBT e como ele pretende encarar os fãs na convenção.

TVInsider.com: Ok, você deveria estar ciente de que todo esse reboliço por matar a Lexa aconteceria, certo? Isso foi algo que vocês tinham consciência, uma vez que decidissem trilhar esse caminho.

Jason Rothenberg: Sim e não. Primeiramente, creio que devo começar dizendo, que nas últimas duas semanas eu pensei muito sobre isso. Me tomou algum tempo para processar. E estive escutando e lendo tudo que tinha ao meu alcance. Eu me ausentei do Twitter porque eu não queria inflamar ainda mais a situação e eu senti que não queria também entrar em certas discussões. Apenas queria escutar e tentar entender. Quer dizer, ficamos um pouco surpresos com isso — não que as pessoas ficaram chateadas; você estava certa sobre que sabíamos que isso poderia acontecer. A história que estamos contando é uma tragédia. Lexa era uma personagem de grande significado para os nossos fãs, especialmente para os fãs LGBT, então é claro que eu tinha consciência que seria emotivo. O que foi inesperado para nós foi a indignação exagerada que muitas pessoas tiveram, mas creio que eu devo entender isto também.

TVInsider.com: Nós já vimos isso acontecer em programas com bases fortes de mídia social. Quanto mais alto for a indignação mais preocupado você deve ficar.

Jason Rothenberg: Sim, a morte de Lexa desencadeou um trauma emocional real para algumas pessoas, sabe? Ele tocou o mundo real, tocou nas suas vidas, e como um homem branco hétero, eu certamente não previ o quão profundamente afetaria certas pessoas. Eu olho para isso agora e percebo que se alguém tivesse me dito que teria esse tipo de reação, e então, olhando para trás sobre que o meu comportamento no Twitter me levaria a isto, que foi celebrar o relacionamento delas e depois acabar dando um fim, eu consigo entender porque eles acham isso repreensível. Espero que um dia possam entender.

TVInsider.com: Como não existe vitórias no Twitter, o que você deseja dizer aos fãs?

Jason Rothenberg: Eu, primeiramente diria, que está me tomando certo tempo para ter uma percepção sobre eu mesmo e me colocar no lugar de alguém que foi machucado desse jeito. E espero que em algum momento ele possam querer colocá-los a si mesmos em nossos lugares e entender que nunca tivemos a intenção de machucar ninguém dessa maneira. Nunca gostaríamos de machucar os nossos fãs. Nós os amamos, nós devemos a eles tudo, devemos a eles também o fato de que acabamos de conseguir uma 4ª temporada. Nós queremos levá-los para uma aventura, não machucá-los. E porque não prevemos esse nível de sofrimento por conta de um personagem fictício, estamos fazendo o que sempre fazemos no Twitter, o que é celebrar o trabalho do qual temos orgulho. Em retrospectiva, sabendo o que sei agora e meio que compreendendo o que antes não compreendia, nós deveríamos ter feito menos do que isso. Nós não deveríamos ter celebrado algo, sendo que tínhamos noção de como iria acabar e sabendo de como afetaria as pessoas.

TVInsider.com: Mas isso não iria afetar o modo que você contaria a história.

Jason Rothenberg: Não, definitivamente não. Nós teríamos contado a mesma história. Eu permaneço na história. Eu apenas acho que não iria sair dizendo ‘Esse é o melhor episódio que já fizemos!’ Ninguém antecipou que isso aconteceria e agora que eu já presenciei, espero aprender muito como criador após isso, sabe? Esse é um programa onde personagens morrem. Aqui existe outra razão de porque ficamos ainda mais surpresos…é um mundo pós-apocalíptico situado após cem anos onde literalmente todos podem morrer.

TVInsider.com: Você já matou uma criança, já matou uma pessoa afro-descendente, você matou Terra-firmes e Homens da Montanha. Você tem um número de mortes não discriminatórias nessa série.

Jason Rothenberg: Isso é verdade. Esse é um mundo onde nós tratamos todos de forma igual e creio que isso inclui, por sinal, a forma como as pessoas morrem. Outra razão pela qual fiquei surpreso, até certo ponto, foi a negatividade da reação à morte de Lexa. Nós criamos este mundo onde não importa de qual etnia você pertence, se é homem ou mulher ou quem você ama, ou se você é homossexual ou hétero. É sobre sobrevivência. É sobre ‘Você pode me ajudar a sobreviver hoje?’ E, a propósito, não sou ingênuo ao ponto de saber que o mundo real não é assim. Eu sei que o mundo real é diferente. Que é por isso que ficção científica é um gênero incrível, porque nós podemos tentar trazer uma questão e ter mensagens, e a mensagem aqui é que etnia, sexualidade, essas coisas não deveriam importar, e isso se estende da forma em que os personagens morrem. Nesse mundo, não importa, você pode morrer se for homossexual ou hétero, pode morrer sendo um ator regular ou não. Essa vai ser uma 3ª temporada bem louca. Já está sendo assim. Mais personagens que amamos irão morrer nessa temporada e será logo.

TVInsider.com: Espera, o quê?

Jason Rothenberg: [Risos] Creio que as pessoas devem se preparar para isso.

TVInsider.com: Você e alguns atores do elenco irão estar na WonderCon em Los Angeles esse final de semana. Você está preparado para lidar com um público hostil?

Jason Rothenberg: Você sabe, penso que poder ir nessas convenções é com certeza uma honra, e sempre fico nervoso na hora. Mas estou disposto a finalmente ficar frente a frente com os fãs, falar com eles e ter um diálogo com eles sobre isso, se isso for algo que os fãs queiram. É uma honra e um privilégio. Realmente é o maior privilégio que tenho na minha vida  — outro, além de ser os pais dos meus filhos e o marido da minha mulher — de poder ser o criador dessa série e eu amo a oportunidade de poder falar sobre isso o quanto for possível.

TVInsider.com: A história ainda não acabou, e envolve níveis e subníveis de reincarnação. Isso é algo que você esteja almejando futuramente mais do que introduzir um novo amor na vida de Clarke?

Jason Rothenberg: Para ser honesto, Clarke está enfrentando a perde de alguém que ela realmente amava, e você sabe, esse é um programa onde as pessoas não superam tão rápido assim. Isso vale tanto para danos corporais como danos mentais, então Clarke vai estar cuidando de um coração partido em um futuro próximo. Nós estamos, você está certa, em um mundo de reincarnação, reincarnação tecnológica, que é outro motivo pelo qual o fim de Lexa deveria ser a morte, porque para reincarnar, você primeiro tem que morrer. Então agora estamos contando a história onde a mente humana pode ser recarregada na Cidade da Luz. Nós já estivemos por lá, vimos pessoas caminhando aos arredores da Cidade da Luz, e essa chama que veio da nuca de Lexa, o que pode significar? Eu não quero falar muito e certamente não quero incitar se Lexa vai voltar ou não, mas isto é um fato tecnológico em nossa série.

TVInsider.com: Então, em algum momento, pode haver a possibilidade de um pequeno vislumbre de resolução para os fãs que estão totalmente devastados com isso.

Jason Rothenberg: Você sabe, com todas essas acusações que estão colocando nas minhas costas, fico meio sensível em relação a isso para responder. Definitivamente posso dizer que estamos vivendo em um mundo de reincarnação onde a mente humana pode ser recarregada como uma chama na Cidade da Luz, e nós vimos as pessoas do mundo real, vimos Jaha lá, vimos ALIE lá, vimos outros personagens lá, então tudo é possível, mas não quero entrar em muitos detalhes.

TVInsider.com: E esse tem sido o plano desde o começo, certo?

Jason Rothenberg: Ah, desde o começo. O bolo foi assado bem antes dos eventos. Nós terminamos de filmar antes do primeiro episódio ir ao ar. Tecnicamente eu estava no set filmando a Season Finale quando o primeiro episódio teve a sua estréia.

The 100 retorna com o episódio 9 da 3ª temporada “Stealing Fire” no dia 31 de março.

© Tradução: Andressa Montagna – Equipe The 100 Brasil – Não reproduza sem os créditos.